sábado, 8 de novembro de 2008

QUEM SOU EU?

Há poucos anos, eu que nunca viajo, visitei uma cidade onde jamais estivera. Depois de andar um bocado sentei-me num banco do terminal rodoviário intermunicipal, apenas com o objetivo de ver gente, pois havia ido de carro. Ao meu lado sentou-se uma mulher de uns quarenta anos, bonita, respeitável (me pareceu). Conversamos sobre várias coisas, mas nada das particularidades de cada um. Depois de mais de uma hora ela resolveu perguntar.
_ Mas afinal, quem é você?
_ Não sei – respondi. _ Talvez seja uma reencarnação de Jesus Cristo, ou do diabo para quem crê em diabos.
_ Você crê? _ Perguntou-me.
_ Creio... em milhares deles, talvez milhões, Aqui no Brasil, por exemplo, tivemos e temos muitos, como o Cidadão Kane brasileiro, esses políticos assassinos e corporativistas, que ajudaram a cruel ditadura militar e que enriqueceram com falcatruas várias, às custas da miséria de um povo doente, sem educação, sem respeito, sem dignidade, sem nada, que não a obrigação se servir incondicionalmente. E o pior é que uns se vão outros vêm, cada vez mais cruéis e insensíveis. Mas veja que refiro-me à história recente, pois isso vem desde o "descobrimento".
_ Crê em Jesus Cristo?
_ Creio apenas naquilo que se baseia em provas concretas. Se há essas provas com relação ao Cristo, então eu creio; se não há, não creio coisa nenhuma.
_ Pelo visto é ateu.
_ Acho que não. Alguma força muito superior e poderosa deve ter criado universo, o nosso planeta e esse ser humano estúpido, cruel, assassino, ganancioso e individualista que somos. Tenho dúvidas quanto à criação do ser humano.
_ Mas como é o seu Deus?
_ Não sei. Você sabe? _respondi perguntando.
_ Pelo menos as escrituras dizem que ele se parece com o homem, pois o criou à sua imagem e semelhança.
_ É? Quer dizer que um ser tão perfeito iria fazer uma porcaria como o ser humano, e ainda parecido com ele?
_ Pensando bem...
_ Não pense ou vai acabar enlouquecendo. Creia apenas que há uma força superior, mas que é uma incógnita, algo que ninguém deve sequer se atrever a dar-lhe forma ou atribuições.
Ela ficou alguns minutos em silêncio e, por fim, voltou a perguntar.
_ Mas quem é você, afinal?
_ Não sei. Posso ser o próprio Deus, assim como você. Deus, para mim são todas as coisas serenas, que tem no olhar esse brilho de esperanças que você tem, que eu devo ter também. Deus não é uma luta odiosa pelo consumo, pela riqueza, pelo poder. Deus não é o lidar com a natureza e com o próximo da maneira que vem sendo feito desde que se conhece a história da humanidade.
_ Você me parece um revolucionário.
_ Sou. Como você, como muitos, que lutam sem armas, que buscam a paz e a harmonia entre homem e natureza, numa luta quase sempre inútil, vã, que rende pouquíssimos frutos. Nossa esperança é que as sementes desses frutos possam germinar um dia e que as árvores da justiça e da igualdade possam, com sua majestade, fazer uma sombra tal , que aniquile a infestação de ervas daninhas que arrasam a humanidade.
_ É, você me convenceu _ disse, finalizando. Creio que não somos o Deus em si, mas um extensão do que podemos chamar de Deus e que eu resumo numa única palavra: AMOR.
Nos despedimos e nunca mais nos encontramos. Mas aquela mulher tinha algo tão profundamente mágico e grandioso, que fiquei ainda mais convencido da existência de Deus... do Meu Deus.

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